
O Campeonato Mundial de Endurance da FIA (WEC) se aproxima de um dos momentos mais aguardados do calendário: a etapa de julho no Autódromo de Interlagos. O circuito de São Paulo é amplamente conhecido por proporcionar corridas imprevisíveis e carregar uma atmosfera única nas arquibancadas. No entanto, para os engenheiros e pilotos da classe dos Hypercars, a pista brasileira representa um dos desafios mais complexos e traiçoeiros da temporada, exigindo um compromisso extremo entre aerodinâmica, mecânica e gerenciamento de pneus.
Diferente dos autódromos modernos europeus, que contam com grandes áreas de escape e asfalto perfeitamente plano, Interlagos preserva características de um traçado clássico e ondulado. Composto por uma extensão de 4.309 metros, o circuito exige que os protótipos de elite do endurance operem em condições severas de estresse estrutural durante as seis horas de competição em solo paulista.
O fator anti-horário do WEC e o desgaste dos pneus Michelin

O primeiro grande obstáculo para as equipes na preparação para o WEC em Interlagos é o sentido anti-horário do traçado, uma raridade na maioria dos campeonatos mundiais. Essa configuração inverte a dinâmica tradicional de forças que atuam sobre o chassi e os pneus. Em Interlagos, o lado direito do veículo suporta quase toda a carga lateral nas curvas de apoio longo e alta velocidade, como a Curva do Sol e a Subida do Café.
Os pneus fornecidos pela Michelin enfrentam um verdadeiro teste de resistência na banda de rodagem. O pneu dianteiro sofre uma degradação térmica acelerada devido ao esforço constante para apontar o carro nas tangentes, enquanto o traseiro direito despeja a potência dos motores híbridos nas saídas de curva. Se os pilotos não adotarem uma pilotagem cirúrgica nas primeiras voltas de cada turno (stint), o superaquecimento da borracha pode arruinar qualquer estratégia de parada nos boxes.
Suspensão maleável e o desafio da altitude no WEC de Interlagos
Encontrar o acerto ideal de suspensão para os Hypercars em São Paulo é um exercício de paciência para os engenheiros de pista. O miolo do circuito (trecho que engloba o Laranjinha, Pinheirinho e o Bico de Pato) exige um carro maleável, capaz de engolir as zebras altas sem perder a estabilidade ou desequilibrar o fluxo aerodinâmico sob o assoalho. Se a suspensão for configurada de forma muito rígida, o protótipo vai saltar excessivamente, gerando perda instantânea de tração e prejudicando o tempo de volta.
Além do relevo acidentado, a altitude de quase 800 metros acima do nível do mar em relação às pistas litorâneas afeta diretamente a densidade do ar. Com o ar ligeiramente mais rarefeito, a eficiência do arrasto aerodinâmico é reduzida, forçando as equipes a utilizarem asas traseiras com maior ângulo de incidência para gerar a pressão vertical (downforce) necessária nas curvas travadas. O resfriamento dos sistemas de freio e dos componentes híbridos também exige dutos de ventilação redimensionados para evitar quebras por superaquecimento.
